TERMO DA SOBERANIA DE PORTUGAL EM ANGOLA. HÁ 50 ANOS – FARRAPOS DE MEMÓRIAS

António Gonçalves Ribeiro
Resumo
Escrito na primeira pessoa, este artigo descreve com rigor factual os acontecimentos relativos à Descolonização de Angola, tantos os relativos à conjuntura política interna em Portugal, como ao contexto político-militar em Angola. Desde o 25 de Abril de 1974 na metrópole à proclamação de independência de Angola a 11 de Novembro de 1975. O Acordo do Alvor com os três Movimentos de Libertação, a Guerra Civil, a problemática dos retornados e a dinâmica implementação das Pontes Aéreas e Marítima para exfiltração dos residentes.
Palavras-Chave: Portugal; Angola; Alvor; Descolonização; Guerra Civil; Ponte Aérea e Marítima.
Abstract
Written in the first person, this article rigorously describes the events related to the decolonization of Angola, both concerning the internal political situation in Portugal and the political-military context in Angola. From April 25, 1974, in the metropolis to the proclamation of Angola's independence on November 11, 1975. The Alvor Accords with the three Liberation Movements, the Civil War, the problem of the returnees, and the dynamic implementation of the Air and Sea Bridges for the exfiltration of residents.
Keywords: Portugal; Angola; Alvor; Decolonization; Civil War; Air and Sea Bridge.
PORTUGAL
Assinado, a 28 de Dezembro de 1974, o Acordo do Alvor[1], em que participei no posto de Tenente-coronel, criaram, entre outros, e já com representantes de FNLA, MPLA e UNITA, dois órgãos essenciais para a governação de Angola, até 11 de Novembro de 1975:
- Alto-Comissário (nomeado por Portugal e coadjuvado por um Secretário-Geral);
- Governo de Transição: 12 ministros (3 de Portugal e 3 de cada Movimento), dirigido por um Colégio Presidencial (3 ministros, um de cada Movimento).
ANGOLA
O novo Alto-Comissário, General FAP António Silva Cardoso, desembarcou em Luanda a 29 de Janeiro de 1975. Instalou-se no Palácio dos Governadores, onde dispunha de residência e local de trabalho. A ala oficial, onde trabalhavam igualmente membros do governo, pessoal de apoio, funcionários civis, seguranças, etc., dispunha, no primeiro andar e rés-do-chão, de grande número de gabinetes e salas diversas, incluindo mais algumas no sótão.
No dia seguinte, deu-me posse do cargo de Secretário-Geral do Alto Comissariado, sendo-me atribuído um gabinete anexo ao do Alto-Comissário.
A posse conferida ao Governo de Transição ocorreu a 31 de Janeiro de 1975. Dia de festa, dentro e fora do Palácio. Mas, passados alguns dias, começou a ser notória a frieza de relações e a permanente tensão entre representantes dos três Movimentos:
- FNLA/Frente Nacional de Libertação de Angola, sob a liderança de Holden Roberto, residindo em Kinshasa e representado em Luanda por Ngola Kabangu;
- MPLA/Movimento Popular de Libertação de Angola, liderado por Agostinho Neto;
- UNITA/União Nacional para a Libertação Total de Angola, liderada por Jonas Savimbi.
A ânsia do poder, independência à vista e apoios internacionais antagónicos conduziram à multiplicação desenfreada de combatentes, quantas vezes forçados, e de arsenais militares repletos de armas e munições, numa total indiferença pela segurança de pessoas e bens e o colapso da pujante economia nacional.
No quadro africano e na vigência da Guerra Fria, os três Movimentos, com posições dominantes em regiões diferentes, colheram apoios diversificados:
- FNLA no Norte, apoiada pelos EUA e República Democrática do Congo;
- MPLA em Luanda e ao longo do litoral de Lobito até Moçâmedes e de Luanda e Malange até ao Luso (atual Luena), apoiado pela URSS e Cuba;
- UNITA, no Centro e Sul, apoiada pela China e República da África do Sul.
A violência descontrolada e a insegurança generalizada já vinham de 1974. Em Luanda, no segundo semestre de 1974, logo após a publicação da Lei n.º 7/74, de 27 Julho – reconhecendo o direito à autodeterminação e independência dos territórios ultramarinos – surgiram organizações políticas de esquerda, as mais variadas manifestações públicas, «grafitis» revolucionários, greves sobre greves, saneamentos selvagens e o labéu de exploradores, reacionários e colonialistas, aplicado ao patronato e a dirigentes e pessoal técnico de fábricas, empresas e serviços públicos.
No início de 1975, a economia angolana entrou em colapso.
Um exemplo entre muitos. O desesperante espetáculo de duas a três dezenas de navios imóveis ao largo dos portos de Luanda e Lobito, afetados por greves infindáveis. Produtos de toda a ordem começaram a escassear, agravando a já débil situação de muitas fábricas, empresas, comércio, hospitais e a generalidade dos cidadãos.
O Governo de Transição reagiu. O Boletim Oficial de Angola, de 27 de Fevereiro de 1975, publicou:
- Decreto-lei n.º 7/75, cujo introito estabelecia: «A boa condução do processo de descolonização implica o regular funcionamento das estruturas económicas, nomeadamente as que visam assegurar a normalidade da vida das populações e a defesa da economia nacional»;
- Decreto-lei n.º 9/75: «É decretada a mobilização militar da Direcção de Exploração do Porto e Caminho de Ferro de Luanda e da Direcção do Porto do Lobito e Fiscalização do Caminho de Ferro de Benguela»;
- Decreto n.º 10/75: «É nomeado um delegado representante do Governo de Transição de Angola junto de cada uma das Direcções de Exploração dos Portos de Luanda e Lobito».
Em Portugal ocorreu, em 11 de Março de 1975, a emergência do PREC/Processo Revolucionário em Curso, fomentada e liderada pelo PCP.
Em Angola, o Colégio Presidencial, no dia 13 daquele mês, difundia um comunicado, registando graves prepotências e abusos da força em vários pontos do território: «actuação indiscriminada de grupos armados, pertencentes aos três Movimentos, que, com inquietante frequência, vinham praticando actos de agressão e violência contra o povo, espalhando o medo e o terror».
O mês de Maio de 1975 trouxe mais um enorme sobressalto. Em fins de Abril, acolhera no meu gabinete representantes de duas Companhias de Polícia Metropolitana, destacadas na cidade de Luanda em reforço da Polícia de Angola, listando múltiplas queixas. Os agentes na sua atividade corrente estavam a ser desrespeitados, insultados e frequentemente agredidos. Mas, pior, muitos haviam trazido as famílias consigo, habitando, a maior parte, nos bairros periféricos da cidade. E, nos últimos tempos, mulheres e filhos eram objeto de constantes insultos, roubos e até agressões, enquanto as suas casas eram vandalizadas, assaltadas e algumas incendiadas.
Com a anuência do Alto-Comissário, determinei o fretamento de 4 aviões que, em poucos dias, rumaram a Lisboa, transportando as duas Companhias e familiares.
Inesperadamente, na tarde de 9 de Julho de 1975, foi desencadeada a batalha de Luanda. A fuzilaria irrompeu infernal, acompanhada do estrondear de granadas numa luta sem quartel que opôs o MPLA à FNLA e à UNITA. Os combates, com intermitências várias, alastraram por toda a cidade.
No terreno, o Comandante Operacional de Luanda, Tenente-coronel Heitor Almendra e as forças de que dispunha – algumas centenas de militares portugueses, por se haverem eclipsado os combatentes dos três Movimentos que integravam as recém-criadas Forças Militares Mistas – movimentavam-se numa azáfama frenética, de ponta a ponta de Luanda, tentando reduzir focos de violência, socorrer pessoas e proteger bens.
No dia 12 de Julho, uma granada desgarrada rebentou na fachada da minha moradia. Felizmente desocupada. A minha Mulher e os nossos filhos por razões de segurança, tinham regressado a Portugal. Eu estava em trabalho. À noite, ao regressar a casa, deparei-me com dois quartos dos meus filhos destruídos e cobertos de estilhaços. Atordoado, orei.
O MPLA, vencedor da luta implacável que se estendeu até 12 de Agosto, atingiu uma posição hegemónica na capital, mas milhares de militantes e simpatizantes, vivendo no Planalto Central ou no Norte de Angola, tiveram de fugir para Luanda e Lobito. Dirigentes e combatentes da FNLA, expulsos de Luanda, convergiram para o Norte (Uíge e Zaire).
Um ano atrás, nos meses de Julho e Agosto de 1974, cerca de 40.000 pessoas trabalhadoras, oriundas do Norte de Angola e vivendo nos musseques de Luanda, foram dali expulsas pelo denominado «Poder Popular» do MPLA, sendo forçadas a regressar às suas aldeias, algures no Norte. Na mesma altura (eu integrava o último Governo de raiz portuguesa), promovi o fretamento de 5 aviões que transportaram para Cabo Verde mais de 1.000 cabo-verdianos, igualmente fugidos dos musseques de Luanda. Navios de passageiros e aviões rumavam a Portugal com lotações esgotadas.
A UNITA abandonou Luanda e instalou-se na cidade de Nova Lisboa (Huambo), no Planalto Central. Esta região, em Setembro de 1974, havia acolhido milhares de trabalhadores (bailundos) que labutavam nas inúmeras fazendas de café no Norte de Angola, pressionados a regressar às suas aldeias por combatentes da FNLA. Consumava-se a balcanização de Angola.
Paralelamente à espiral de violência, que alastrou a todo o território, foi-se contraindo o dispositivo das Forças Armadas Portuguesas, de Leste para o Planalto Central e dali para a faixa litoral, ficando circunscrito, nas vésperas da independência, à cidade de Luanda.
A comunidade de raiz portuguesa, espalhada pela vastidão do território angolano, ficou exposta à crescente teia de confrontos armados e sujeita aos maiores vexames e a extorsões de toda a ordem.
No mês de Julho de 1975, a TAP atingira o limite máximo de capacidade de transporte de passageiros a partir de Angola, muito aquém da procura angustiada que crescia imparável com a independência dia-a-dia mais próxima. No aeroporto de Luanda vivia-se um autêntico pandemónio. Na aerogare, centenas de pessoas desesperadas à míngua de transporte aéreo, marcavam o seu lugar em longuíssimas filas de espera, dia e noite, recorrendo a camas improvisadas. O pessoal de terra, exausto, passava por vexames de toda a ordem, chegando a sofrer tentativas de agressão.
Algo tinha, mesmo, de ser feito.
A única forma de atenuar a crescente pressão exercida no aeroporto de Luanda seria operar um outro terminal intercontinental (inexistente) no Planalto Central, em Nova Lisboa (Huambo). Multipliquei os contactos com Francisco Reis, delegado da TAP para Angola e São Tomé. O tempo não estava para grandes estudos. Total apoio do Alto-Comissário, propostas e sugestões vindas de Francisco Reis, adesão da Comissão Administrativa da TAP e de outros serviços nacionais, disponibilidade de pessoal de terra e um rol de facilidades (instalações, alimentação e cuidados de saúde) da parte do Presidente da Câmara de Nova Lisboa, Dr. José Marques Leandro, meu grande Amigo. O novo terminal começou a operar no dia 11 de Agosto de 1975, mas apenas com alguns voos da TAP desviados de Luanda.
Em 2 de Agosto, dera uma conferência de imprensa no Palácio dos Governadores a que compareceram todos os órgãos da comunicação social de Angola e bastantes estrangeiros de que destaco o 2.º Canal da TV Alemã, Reuter, BBC, France Press, Washington Post, Le Figaro, Argus African News. Nenhum português, todos embrenhados no PREC que dilacerava o país.
Expus a situação corrente em Angola e dei a conhecer as iniciativas em apoio das vítimas de violência, relevando as Comissões já constituídas para resposta a problemas específicos de desalojados e adidos, na esmagadora maioria de raiz portuguesa. A duas perguntas muito concretas, respondi: «Nenhum cidadão ficará privado de chegar a Portugal, até à véspera da independência, se for essa a sua vontade» (cumpriu-se). «Quanto aos cabo-verdianos, não lhes faltará apoio no eventual regresso a Cabo Verde» (cumpriu-se).
No final daquele dia, 2 de Agosto de 1975, o Alto-Comissário, General FAP António Silva Cardoso, que se demitira do cargo, regressava a Portugal. Trabalhador incansável, dedicadíssimo às responsabilidades assumidas, vinculado aos Acordos do Alvor (cujos termos só eram respeitados pela parte portuguesa) esgotara-se na missão impossível de o levar a bom termo. O General Ferreira de Macedo assumiu o cargo de Alto-Comissário Interino. De Portugal chegavam os ecos de «nem mais um soldado para Angola».
PORTUGAL
A 5 de Agosto de 1975, eu e o Tenente-coronel «pára» Heitor Almendra, meu 'velho' amigo e ambos do mesmo curso na Escola do Exército (hoje Academia Militar) embarcávamos para Lisboa. Tínhamos assumido as atuais funções a convite do General Silva Cardoso. Da minha parte levava como meta prioritária a TAP e, logo de seguida, previa uma reunião com o Presidente da República, General Costa Gomes. Tempos diferentes, aqueles!
O IV Governo Provisório (26 de Março-8 de Agosto de 1975) – Primeiro-ministro Vasco Gonçalves; ministros Sem Pasta/Álvaro Cunhal, Mário Soares, Magalhães Mota e Pereira de Moura; 16 ministros, sendo Almeida Santos o Ministro da Coordenação Interterritorial/ex-Ministro do Ultramar – entrava em derrapagem. No princípio de Agosto, todos os membros do PS o abandonaram, seguidos pelos ministros do PPD/Partido Popular Democrático, hoje PSD, e alguns ministros militares.
Ambos sentimos necessidade de falar com alguém acerca do momento político-militar nacional. Optámos por Melo Antunes. Oficial do Exército (Major), figura marcante do 25 de Abril e intelectual frio, estava sendo alvo de uma campanha difamatória e ameaças de expulsão do Exército por combater o PREC.
A 6 de Agosto, reunimo-nos em sua casa. Expôs-nos o «crescendo» do PREC dominado pelo PCP com o apoio do COPCON/Comando Operacional do Continente, sob o comando do Major Otelo Saraiva de Carvalho (graduado em Brigadeiro), e da ala esquerda do Movimento das Forças Armadas/MFA. Deu-nos ainda a conhecer um documento elaborado por ele e alguns oficiais que se opunham aos desvarios gonçalvistas. Ficou conhecido por «Documento dos Nove». Ele próprio o entregou ao Presidente da República.
No dia seguinte, deslocámo-nos ao edifício do EMGFA, onde ambos o assinámos.
O encontro com o Eng.º Norton, membro da Comissão Directiva da TAP, estava aprazado para 8 de Agosto. Encontrámo-nos na sede da empresa, junto ao aeroporto. Já nos conhecíamos. Na exposição que me fez concluiu pela impossibilidade de a TAP, nos próximos meses, incrementar ligações aéreas com Angola. Solicitei-lhe alternativas. Nenhumas, respondeu. Pedi-lhe para me acompanhar a Belém. O Presidente da República tinha de ser posto ao corrente. Anuiu.
A reunião no Palácio de Belém estava marcada para 10 de Agosto. Cerca das 14h30, sentámo-nos em redor de uma mesa onde, além do Presidente Costa Gomes, estavam sete ou oito pessoas, incluindo oficiais do Gabinete Angola.
O eng.º Norton fez uma exposição idêntica à anterior. Inviável o reforço de voos TAP para Angola. Sobreveio um silêncio que me soou a acomodação. Tudo fora tentado, logo, nada mais podia ser feito. Mas a minha recordação dos dias que se viviam em Angola, a angústia de tanta gente desesperada por regressar/partir para Portugal, as longas filas de espera e a situação caótica no aeroporto de Luanda e, ainda, o desenrolar imparável do «Plano Regresso» de todos os nossos militares ali destacados, davam-me sobejos motivos para resistir e não baixar os braços.
Pressionei o Eng.º Norton a sugerir alternativas, fossem elas quais fossem. Nada convencido, sugeriu o recurso à Reserva Estratégica de Transporte Aéreo dos Estados Unidos, diretamente subordinada à Casa Branca. Mas tal remota hipótese teria de ser comprovada pela Embaixada norte-americana. Levantei-me e fui direito à mesinha do telefone. Peguei na lista e folheei-a, procurando o número da embaixada. Alguém me perguntou o que estava fazendo. Tentar a ligação com o Embaixador dos Estados Unidos (na altura Frank Carlucci), respondi.
O Presidente mantinha-se calado e imperturbável.
Na ausência do Embaixador, fui atendido pelo Conselheiro da embaixada. Acedeu acolher-me em sua casa no Estoril, no fim do dia. Cheguei à residência sem credencial alguma. O meu único mandato decorria da anuência tácita do General Costa Gomes, após o telefonema. O diplomata não pareceu surpreendido. Apresentei-me e disse ao que ia. No termo da nossa conversa, deixou-me a esperança de que, por razões estritamente humanitárias, a Administração dos EUA poderia estar receptiva a acolher o pedido de meios aéreos da Reserva Estratégica. Tornava-se, no entanto, indispensável que o Presidente da República formalizasse o pedido.
No dia seguinte, 11 de Agosto, na parte da manhã, pus o Presidente a par da diligência efetuada e do resultado alcançado. Aceitou enviar a carta que, no mesmo dia, foi entregue na Embaixada norte-americana. A resposta positiva ao pedido de reforço de meios aéreos foi anunciada pelos EUA a 27 de Agosto. Pouco depois, chegava a Angola uma equipa norte-americana do pessoal de terra da Reserva Estratégica encarregada da operação dos meios aéreos que iriam ser disponibilizados.
A partir de Setembro de 1975, para além da TAP e deste reforço, mais cinco países foram aderindo à ajuda humanitária: Reino Unido, URSS, República Democrática da Alemanha, França e Bélgica.
Durante a estadia em Lisboa, reuni-me com organismos diversos relacionados com o futuro imediato e próximo dos nossos cidadãos em Angola:
- Instituto de Apoio ao Retorno de Nacionais/IARN (Criado pelo Dec-Lei n.º 169/75 de 31 de Março e revisto pelo DL n.º 494/75 de 10 de Setembro). Dirigido pelo Tenente-coronel Cardoso do Amaral, competia-lhe o apoio, na altura do desembarque, aos que regressassem do Ultramar. Os mais carenciados tinham direito a meios de subsistência, incluindo alojamento (nos mais díspares locais, incluindo hotéis de 3 e 4 estrelas, desertos por causa do PREC);
- Comissão Administrativa da TAP, abordadas questões diversas, uma das quais de relevante importância, o abastecimento de combustível dos aviões operando em Angola, atenta a situação ali vigente;
- Ministério da Coordenação Interterritorial, recolhida informação de vários departamentos, com especial interesse do Gabinete Militar e da Marinha, chefiado pelo Capitão-tenente Leal Coelho, a pensar já na eventual necessidade de navios cargueiros. Na nossa conversa, deu-me a saber que além de cargueiros também havia navios porta-viaturas.
Regressei a Angola, na sequência de um pedido formal para que me mantivesse em funções.
ANGOLA
Desembarquei no aeroporto de Luanda ao fim da tarde de 20 de Agosto 1975. Alguns oficiais e pessoal do meu gabinete esperavam-me à saída do avião. Um deles confrontou-me com uma mensagem muito urgente da Presidência da República, solicitando a minha presença numa reunião marcada para a tarde do dia seguinte, no Forte de S. Julião da Barra. Nada, quanto ao motivo. O voo para Lisboa estava já marcado. Partiria naquela noite. Mantivemo-nos conversando numa das salas reservadas da aerogare. Pu-los ao corrente das diligências que efetuara em Lisboa, dos encontros em que participara e dos resultados alcançados.
Pedi notícias de Angola. Foram más, como esperava.
O Governo de Transição deixara de funcionar. O Alto-Comissário Interino, General Ferreira de Macedo, assumira as funções do Colégio Presidencial «devendo os Ministros e Secretários de Estado, enquanto se mantiver esta situação transitória, limitar as suas portarias e despachos ao mínimo indispensável».
O MPLA reagiu, considerando o teor do decreto ilegal «donde entender dispor de toda a legitimidade para assumir integralmente a responsabilidade da governação do país». O que não aconteceu.
A uma pergunta acerca de eventuais reforços dos três Movimentos em material de guerra, fui informado de indícios de desembarques ao longo da costa com destino ao MPLA, que incluiriam forças combatentes (cubanas?, russas?), viaturas blindadas e armas pesadas.
A FNLA desembarcara material de guerra no porto de Matadi, donde o transferira, via aérea, para a Base Aérea do Negage, no Uíge, já por nós abandonada.
A UNITA e o MPLA tinham-se afrontado em violentos combates na cidade do Lobito, cujo resultado fora um pesado revés das forças de Jonas Savimbi. Os seus combatentes, em fuga, procuraram refúgio no quartel ali existente, ainda ocupado por tropas portuguesas.
A Guerra Civil era uma realidade em Angola.
A concluir, algumas notícias recentes:
- Confirmava-se a presença de forças sul-africanas em Ruacaná e Calueque, na margem esquerda do rio Cunene, junto à fronteira;
- O Cônsul-geral dos Estados Unidos em Luanda publicara um aviso dirigido não só aos seus cidadãos, mas também aos do Reino Unido e Canadá, para abandonarem o território rapidamente;
- A refinaria de Luanda encontrava-se paralisada com efeitos diretos e críticos no abastecimento de aviões.
PORTUGAL
Chegado a Lisboa em 21 de Agosto de 1975, dirigi-me ao Forte de S. Julião da Barra. A reunião ia ter lugar na sala da biblioteca. Deparei-me com cerca de dez oficiais, alguns vindos de Angola. Enquanto aguardávamos a chegada do Presidente, fiquei a saber que a questão central da convocatória era a escolha do Alto-Comissário. Foi-me dito que havia um consenso generalizado para eu exercer o cargo. O Tenente-coronel Heitor Almendra seria nomeado Comandante-Chefe Adjunto. Ambos seríamos graduados no posto de General de três estrelas.
Tive tempo para refletir, antes de o Presidente da República iniciar a reunião. A minha decisão estava tomada: não iria aceitar. Estava mais do que disposto a voltar a Angola. Reconhecia, no entanto, que o cargo de Alto-Comissário me impediria de lidar exclusivamente com a criação de condições que garantissem o regresso a Portugal de todos os que optassem por deixar Angola, antes de 11 de Novembro de 1975.
Foram estes os termos em que baseei a resposta ao convite que, pouco depois, me era formulado pelo Presidente da República. Interrompeu os trabalhos. Levantámo-nos e a sós, numa sala contígua, expôs as razões que haviam justificado a escolha e, do seu ponto de vista, me deveriam levar a ponderar a resposta já dada:
- Acordo sem reservas quanto ao meu nome para Alto-Comissário;
- Vivência e conhecimento da situação em Angola;
- Aceitação do cargo de Comandante-Chefe Adjunto, já confirmada pelo Tenente-coronel Heitor Almendra.
Mantive a posição já assumida e reforcei os argumentos que a fundamentavam. Na sua maneira de ser e estar, algo enigmática, deixou de insistir e perguntou-me quem acharia em condições de exercer o cargo. Não me dando tempo a responder, avançou com o nome do Comodoro Leonel Cardoso. Apoiei de imediato a escolha.
No final da reunião, disse-me para não regressar já a Angola, devendo manter-me em Lisboa por mais alguns dias.
O V Governo Provisório (8 Agosto-12 de Setembro, também dirigido por Vasco Gonçalves, «o governo provisório mais à esquerda»), em 22 de Agosto «lavou as mãos» e alijou todas as suas responsabilidades em relação a Angola. O Conselho de Ministros, naquele dia, nos tempos conturbadíssimos que se viviam em Angola, não ponderando consequências da parte dos três Movimentos, sem mencionar apoios ou reforços, desatento à imparável contração do dispositivo militar, «fiel» ao slogan das grandes manifestações do PCP «nem mais um soldado para Angola»:
- Decretou a suspensão transitória da vigência dos Acordos do Alvor,
- Alargou as competências do Alto-Comissário (decretar o estado de sítio em uma ou mais partes do território de Angola e nomear Directores-gerais, cujos titulares tenham sido designados pelo Presidente da República de Portugal);
- E o MNE, Dr. Mário Ruivo, informava o Secretário-Geral das Nações Unidas, Kurt Waldheim, do respectivo teor e alertava para o estado de rotura a que chegara a situação em Angola, forçando o Governo Português a adoptar as medidas drásticas ali anunciadas!!!
As reações dos Movimentos não tardaram. A FNLA divulgava um comunicado, no dia 27, em Kinshasa, «Proclamando-se, a partir de tal data, desligada de qualquer acordo com Portugal». Dias depois, a 30, o MPLA, através do seu «bureau» político, reagiu com rara violência numa fraseologia altamente insultuosa para o Governo e as Forças Armadas Portuguesas.
A 30 de Agosto, assisti à tomada de posse do Alto-Comissário e do Comandante-Chefe Adjunto, respetivamente Vice-Almirante Leonel Cardoso e General Heitor Almendra.
Regressei a Luanda, no dia 1 de Setembro, e passei a dedicar-me exclusivamente ao universo dos nossos cidadãos deslocados/refugiados:
- Em grandes concentrações na capital e em Nova Lisboa (Huambo);
- Ou em aglomerações mais reduzidas nalgumas já poucas cidades, nomeadamente do litoral;
- E ainda em pequenas comunidades dispersas pela vastidão do território, 14 vezes maior que Portugal.
RECORDANDO.
Na esperança de que a população de raiz portuguesa pudesse permanecer em Angola, evitou-se, até à última hora – Almeida Santos, no seu livro «Quase Memórias», chamou-lhe, 25.ª hora – a adopção de medidas que incentivassem a partida. Todavia, a partir de Junho de 1975, a afluência de milhares de pessoas à cidade de Luanda estava saturando as estruturas de acolhimento e alojamento, precariamente implantadas. Não se podia enterrar a cabeça na areia nem ignorar o que era por demais evidente. O Alto-Comissário, General Silva Cardoso, na tentativa de suster aquela avalanche, assinou, em 19 de Junho de 1975, dois despachos:
- Um providenciando o repatriamento de funcionários públicos (e seus familiares) que já haviam optado pelo ingresso no Quadro de Adidos;
- Outro nomeando-me presidente de uma nova comissão – Comissão Coordenadora do Apoio aos Retornados.
Pouco depois, assinou novo despacho, em 23 de Junho de 1975, criando nas sedes de todos os distritos (hoje províncias), Comissões de Apoio aos Desalojados. Na parte final, preconizava «que fosse evitada a difusão de quaisquer orientações passíveis de serem entendidas como um incentivo ao abandono de Angola e dos locais de trabalho».
GUERRA CIVIL
O Almirante Leonel Cardoso e o General Almendra desembarcaram no aeroporto de Luanda em 4 de Setembro. A Guerra Civil transpusera o nível da guerrilha e atingira o patamar da guerra convencional, por recurso a contingentes militares de várias nacionalidades, blindados, lança-granadas, morteiros e artilharia pesada vindos do exterior.
MPLA – Grande objetivo político: ser o único Movimento presente na capital no dia 11 de Novembro e, se necessário, declarar unilateralmente a independência de Angola. Apoiado pelo PCP e pela ala esquerda do MFA, criticava a postura equidistante das Autoridades e das Forças Armadas Portuguesas em relação aos três Movimentos e não aceitava a falta de adesão da população branca ao seu ideário. A Emissora Oficial passou a arma do partido e num dos seus mais populares programas – «Kudibanguela» – a vastíssima comunidade de raiz portuguesa ia sendo, diariamente, «zurzida» com rara violência, por entre os já conhecidos «chavões»: colonialistas, reacionários, imperialistas, etc.
Este Movimento passara a dispor de um exército – Forças Armadas de Libertação de Angola/FAPLA – reforçado por cubanos, com armamento pesado de origem russa. Batia-se em duas frentes:
- Frente Norte. «Inimigo», a FNLA e o seu braço armado – Exército de Libertação Nacional de Angola/ELNA – equipado pelas Forças Armadas da República Popular do Congo (liderada por Mobutu Sese Seko) e dispondo de um Corpo de Mercenários, muitos ex-militares do nosso Exército. As operações ofensivas do ELNA ou eram dificilmente sustidas pelas FAPLA ou acumulavam sucessos, aproximando-se das portas de Luanda. Nas vésperas da independência, o rio Bengo, que desaguava no Atlântico – 65 km a norte de Luanda – separava o ELNA, numa postura ofensiva na margem norte, das FAPLA, organizadas defensivamente em torno da povoação de Quifangondo, na margem sul.
- Frente Centro, Sul e Leste. «Inimigo», a UNITA e o seu exército – Forças Armadas de Libertação de Angola/FALA – armadas e equipadas pela República da África do Sul. Nesta frente, o MPLA empenhou-se numa intensa atividade operacional, com o esforço na faixa litoral a Sul de Luanda e no extremo Leste. Os resultados foram-lhe favoráveis, saindo vencedor da generalidade dos confrontos com as FALA.
FNLA – Objetivo político: chegar a Luanda, a todo o custo, por forma a garantir o controlo da capital na altura da independência.
UNITA – Objetivo político: alcançar uma plataforma de acordo com o MPLA que lhe permitisse integrar os órgãos de soberania de Angola, após a independência.
ESTRUTURA INFORMAL
Ainda não se falava em Ponte Aérea e, muito menos, Ponte Marítima, mas era óbvio que o afluxo desmesurado de pessoas, bagagens e outros bens aos locais de embarque aéreo e marítimo implicaria a reestruturação/ampliação dos apoios existentes.
A partir de Agosto, mesmo na situação caótica de guerra civil, houve que:
- Definir a estrutura de suporte para uma complexa teia de circuitos, movimentos, locais de concentração, operação dos terminais aéreos e marítimos, compatibilização entre transporte aéreo de pessoas e transporte marítimo de haveres e viaturas, etc. que, frequentemente, tinha de ser refeita pelo súbito embarque dos voluntários que a integravam, logo que viam os seus problemas resolvidos. Em princípios de Novembro, ainda em Luanda, contavam-se cerca de 200 voluntários das mais variadas profissões e idades;
- Dispor, com oportunidade, de aviões e navios nos terminais adequados, bem como de locais de armazenamento de bagagens e de concentração de viaturas, guindastes, monta-cargas, empilhadoras, etc.;
- Um sistema de informação, cobrindo tentativamente todo o território angolano para saber onde está quem, tem o quê, para ir para onde, só possível graças ao inestimável apoio, dedicação e espírito de missão das nossas Forças Armadas, em especial Exército e Força Aérea;
- Apoiar a deslocação de pessoas, desde as suas residências ou dos locais onde se tinham concentrado ao longo do território, até aos portos e aeroportos que estavam sendo operados;
- Garantir instalações provisórias (dormida, alimentação e alguns cuidados de saúde);
- Encaminhar para embarque; garantir segurança nos locais de reunião e nos pontos de embarque;
- Acionar e controlar(!) o desenvolvimento da gigantesca operação com frequentes desvios, estes inevitáveis e decorrentes do desequilíbrio psicológico a que poucos escapavam.
ATÉ LUANDA EM SEGURANÇA
A par e passo do «Plano Regresso», as Forças Armadas Portuguesas, com raríssimas excepções, fizeram jus ao seu historial entranhado na nossa História. Numa postura radicalmente oposta à desgraçada imagem das unidades militares que em Lisboa alimentavam o PREC, o Exército, a Força Aérea e a Marinha, com os condicionamentos por que já passavam na altura, envolveram-se até aos limites das capacidades nas mais variadas ações de recolha e evacuação, correndo riscos consideráveis e passando por situações no mínimo desagradáveis.
Dois exemplos, apenas.
«Operação Regresso». Em fins de Julho, a região Norte de Angola, de claro predomínio da FNLA, estava em convulsão. Em Carmona (atual Uíge), capital do distrito (hoje província do Uíge), tinha chegado o momento de as derradeiras autoridades administrativas, o Comando do Sector Militar e o batalhão ali aquartelado recolherem a Luanda. Este último em ordem de marcha completa, isto é, com todas as viaturas, armas, munições e demais materiais e palamentas registados nas respetivas cargas. Distância: 490 km pela estrada que passava por Salazar (hoje N'Dalatando), capital do Cuanza Norte, já deserta.
As relações entre a FNLA e as autoridades portuguesas, já muito tensas, agravaram-se com o braço de ferro criado entre o ELNA e o comandante do batalhão, Tenente-coronel Almeida e Brito, após os dirigentes da FNLA exigirem ficar na posse de todo o armamento e munições do batalhão, «pois se chegassem a Luanda reverteriam para o MPLA». O Brigadeiro Leão Correia, comandante do sector, estava condicionado pelas centenas, senão milhares de refugiados de raiz portuguesa e muitos militantes do MPLA, que haviam inundado o quartel do batalhão. O recurso à força podia ter consequências nefastas para os civis e pesadas baixas entre os nossos militares.
A situação foi ponderada em Luanda. O General Ferreira de Macedo, o General Heitor Almendra e os Comandantes dos três Ramos analisaram a situação, concluindo que só um notório desequilíbrio de potencial de combate, a nosso favor, naquela área permitiria a vinda para Luanda, não só das unidades militares, mas ainda de toda a gente que quisesse abandonar Carmona.
Foi constituído um Agrupamento de Forças Especiais – uma Companhia de «comandos» e duas Companhias de paraquedistas – sob o comando do Capitão «comando» Afonso Lourenço, reforçado com dois helicópteros, um deles de ataque, e dispondo do apoio aéreo de uma parelha de caças Fiat G-91, em alerta máximo na Base de Luanda. Em 31 de Julho, manhã cedo, o Agrupamento partia de Luanda, levando consigo uma coluna de cerca de 200 viaturas em reforço das existentes no batalhão. Na ida, muitas daquelas viaturas transportaram militantes da FNLA que abandonaram a capital a caminho do Norte.
A chegada ao destino ocorreu no dia seguinte, a meio da tarde, com alguns problemas no percurso facilmente sanados. O resto daquele dia e os dois seguintes foram consumidos na organização de uma extensíssima coluna, integrando muitas viaturas militares, mas também um número considerável de veículos civis de todo o tipo, até autocarros (total, cerca de 200), transportando largas centenas de nossos compatriotas e muitos angolanos que fugiam da FNLA.
A coluna pôs-se em marcha na madrugada de 4 de Agosto. Em Samba Caju, 160 km depois, já eram mais de 700 viaturas. Em movimento, a coluna estendia-se por algumas dezenas de km. Após duas noites passadas ao relento, atingia, a meio do dia 6, já com mais de 1.000 viaturas, o Campo Militar do Grafanil, a 10 km da capital, ponto de destino da coluna militar. Manifestações de júbilo e de alívio por toda a gente chegar sã e salva a Luanda.
A FORÇA AÉREA EM ACÇÂO
Por duas vezes, em operações de recolha de cidadãos portugueses isolados, aviões Nord-Atlas da FAP ficaram retidos no solo por forças da UNITA. Aconteceu em meados de Setembro, na Jamba, cerca de 140 km a Leste de Sá da Bandeira (hoje, Lubango). A «libertação» do Nord-Atlas e do grupo recolhido, algumas dezenas de homens, mulheres e crianças, ocorreu sem grandes problemas.
A outra situação foi mais complicada. Dois Nord-Atlas em missão de recolha de um outro grupo, este bem maior, na povoação de Gago Coutinho, estavam cercados por forças da UNITA. A povoação, hoje Lumbala Guimbo, está localizada no distrito do Moxico, extremo Leste de Angola, a 15 km da fronteira com a Zâmbia. O alerta fora dado por um DC-6 da FAP que sobrevoara o local. Eu e o Almendra entrámos em contacto telefónico com a direção da UNITA, em Nova Lisboa. Compreensão total quanto à rápida solução do impasse. O DC-6 aterrou no aeroporto de Nova Lisboa, embarcou um dirigente da UNITA e rumou a Leste para sobrevoar o local da retenção. O posto de um Nord-Atlas foi ligado e o dirigente da UNITA falou via rádio com o responsável das FALA. Teve de se exaltar para ser obedecido. Tudo acabou em bem, com os dois Nord-Atlas a voar e os «passageiros» embarcados.
INVENTÁRIO DE SÍMBOLOS HISTÓRICOS
Os símbolos históricos e culturais de um passado comum tinham de ser preservados. Na turbulência reinante em Angola, entre Abril e princípios de Julho de 1975, passaram a ser frequentes os contatos que estabeleci com o Ministério das Obras Públicas, Habitação e Urbanismo/Departamento de Monumentos Nacionais (ministro português, Eng.º Manuel Alfredo Rezende de Oliveira). Finalidade: promover o inventário de estátuas, lápides e outros símbolos; apurar o interesse histórico, arqueológico e cultural; concluir pela sua continuidade em Angola, nos locais/museus, ou o transporte para Portugal.
Em princípios de Julho, estavam ainda incompletos os inventários de 7 distritos: Bié, Cabinda, Luanda, Lunda, Moçâmedes, Uíge e Zaire. Concluído o inventário nos outros 9: Benguela, Cuando-Cubango, Cuanza Norte, Cuanza Sul, Cunene, Huambo, Huíla, Malange e Moxico. Até àquela data, haviam sido inventariadas 210 «obras» nos 16 distritos: 17 estátuas, algumas dos séculos XVII e XVIII, 37 bustos, 14 retratos, 25 pedras de armas, 4 pedras brasonadas, 5 pedras sepulcrais, 57 lápides, 34 símbolos, 1 escultura, 6 insígnias, 2 medalhões, 7 pinturas e um sem-número de murais de azulejos.
Por distrito, a representação mais numerosa estava em Luanda (68 peças), seguida do Huambo (38), Benguela (34) e Cuanza Sul (24).
As estátuas em Luanda, onde se incluíam navegadores e outros notáveis portugueses, incluindo Camões, foram mandadas apear e transportadas para a Fortaleza de S. Miguel, prevenindo a sua indesejável vandalização. «Ali as encontrei, na década de 1990, primorosamente conservadas, quando me deslocava a Luanda, com grande frequência, no cargo de Diretor-Geral de Política de Defesa Nacional». Todas as obras inventariadas permaneceram em Angola.
A partir de 9 de Julho, as sequelas da «Batalha de Luanda» cortaram abruptamente os trabalhos em curso.
ANGOLA – A PONTE AÉREA E MARÍTIMA
A Emissora Católica teve um papel relevantíssimo na difusão de avisos para informar e sensibilizar pessoas, bem como para a regulação de embarques e operação de navios.
Os desalojados tinham reações imprevisíveis. Uma única tendência se revelou comum a todos: a colocação de viaturas pessoais e de caixotes, onde haviam reunido parte dos seus bens, nos portos selecionados – Luanda, Lobito (ao centro) e Moçâmedes (a sul). Posteriormente, a deslocação com os seus familiares até Luanda ou Nova Lisboa (Huambo), onde operavam os aviões da Ponte Aérea. Este último movimento, do Lobito (520 Km) e Moçâmedes (950 km) até Luanda, teve de ser feito em navios de passageiros ou adaptados a tal fim, alguns fretados, não só pelas distâncias, mas também por razões de segurança.
A coordenação dos voos – nacionais, fretados e oferecidos (ajuda humanitária) – coube à TAP, liderada por Francisco Reis, em articulação estreita com a equipa técnica dos EUA.
Navios de carga e porta-viaturas. Iam sendo por mim «requisitados» - não com muita antecedência – ao Gabinete Angola da Presidência da República, onde o Capitão-tenente Leal Coelho se encarregava de os «colocar» nos portos de Luanda, Lobito e Moçâmedes. E lá foram aparecendo! Quase sem atrasos em relação à data pretendida!
Locais De Reunião
A dimensão territorial de Angola, o elevadíssimo número de pessoas a repatriar, as enormes quantidades de caixotes e viaturas que se previa acumular nos três portos, a dispersão geográfica dos principais centros urbanos e de muitas outras povoações de menor dimensão, tudo conjugado determinou a necessidade de criar Centros de Acolhimento para deslocados e Locais de Reunião para cargas, em Luanda, Nova Lisboa (Huambo), Lobito e Moçâmedes.
Por norma aproveitavam-se os nossos quartéis, já desativados ou não. Um exemplo, apenas, de um Centro de Acolhimento: o quartel do Batalhão de Paraquedistas (cerca de 800 militares) em Belas, arredores de Luanda:
- Atividade de acolhimento: 22 de Setembro a 2 de Novembro.
- Refeições: confeccionadas ao longo das 24 horas, dado o elevadíssimo número dos que ali permaneciam.
- Em 5 de Outubro, albergava muitos dos 15.000 deslocados que haviam afluído a Luanda, num curto espaço de tempo: 5.173 passageiros chegados do Lobito, em 4 e 5 de Setembro, nos navios «Malange» e «Congo»; entre 2 e 5 de Setembro, 2.086 desembarcados dos navios «Rita Maria», «Novo Redondo» e petroleiro «S. Gabriel» (da nossa Armada, adaptado), a partir de Moçâmedes; e 7.195 transportados pela FAP, de 27 de Setembro a 3 de Outubro, na mini-ponte aérea Nova Lisboa/Huambo-Luanda.
A Ponte Aérea
Em 29 de Setembro, atracou no porto de Luanda o petroleiro «Erati», com reserva de combustível para a Ponte Aérea. A logística de reabastecimento de combustível foi uma operação extremamente complexa, havendo que recorrer a vários países da costa africana.
A movimentação de pessoas de Angola para Portugal, nos anos 1974 e 1975, refletiu o crescendo de violência até à guerra civil generalizada.
- A partir de Maio de 1975, saíram de Angola 176.834 pessoas, rumo a Portugal, com embarques em dois terminais:
- Nova Lisboa (Huambo): 58.227 pessoas entre 11 de Agosto e 4 de Outubro;
- Luanda: 118.607 pessoas, das quais 87.387 nos meses de Setembro e Outubro.
- Em finais de Setembro, o grande número de deslocados que ali se encontravam era incompatível com a programação dos voos intercontinentais, a fechar naquele terminal em 04 de Outubro. Única solução à vista: transferir muitos para Luanda, de onde embarcariam para Portugal. Disso se encarregou, uma vez mais, a FAP. Os dois aviões de longo curso, «Boeing 707», realizaram, entre 27 de Setembro e 3 de Outubro, 35 voos entre as duas cidades, transportando 7.195 passageiros.
- 118.607 pessoas saíram de Angola pelo aeroporto de Luanda. Deste total, 87.387 embarcaram nos meses de Setembro e Outubro, rumo a Portugal.
- Além destes, 2.852 cabo-verdianos foram transportados pela TAP para a ilha do Sal, Cabo Verde.
Foram operados 905 voos, assim discriminados:
- 451 voos da TAP e 65.438 passageiros; 172 voos fretados e 43.359; 14 voos dos TAMoçambique e cerca de 3.000 pessoas; 265 voos oferta de governos estrangeiros e 47.306 passageiros;
- Voos estrangeiros: 124/EUA, 44/Reino Unido, 30/URSS, 26/RDA, 21/França, 17/RFA, 3/Bélgica.
No cômputo geral, cerca de 310.000 pessoas abandonaram Angola com destino a Portugal: 132.110 entre maio de 1974 e Maio de 1975; 176.834 entre Maio de 1975 e 3 de Novembro de 1975.
Ressalvam-se os voos que não foram registados, em alturas de maior pressão, e ainda «os que escaparam à Ponte Aérea».
Ponte Marítima
Navios utilizados rumo a Lisboa:
- De Luanda, entre 4 de Setembro-09 de Novembro: 10 cargueiros e 4 porta-viaturas, num total de carga de 140.500 m³ e 9451 viaturas;
- Do Lobito, entre 16 de Setembro-29 de Outubro: 5 cargueiros e 2 porta-viaturas, num total de 57.600 m³ e 3.631 viaturas;
- De Moçâmedes, entre 26 de Setembro-04 de Novembro: 5 cargueiros e 2 porta-viaturas, num total de 63.500 m³ e 3.445 viaturas.
Navios de passageiros ou adaptados do Lobito e Moçâmedes para Luanda:
- Do Lobito, entre 15 de Setembro-29 de Outubro: 9 navios em 18 viagens embarcaram 21.835 passageiros;
- De Moçâmedes, entre 29 de Agosto-04 de Novembro, 8 navios em 21 viagens transportaram 25.918 passageiros.
No cômputo geral, com destino a Portugal, foram transportados 260.600 m³ de carga e 16.527 viaturas, em 20 cargueiros e 8 navios porta-viaturas
«OS QUE ESCAPARAM À PONTE AÉREA»
Épicas aventuras por terra e por mar com escassos registos de pessoas envolvidas:
- Os Camionistas. Precedendo diligências diplomáticas a cargo do MNE junto das autoridades em Pretória, os camionistas organizaram, no litoral e centro de Angola, uma gigantesca coluna de cerca de 1.300 viaturas pesadas que se repartiu por vários destinos além-fronteiras: Rodésia/Zimbabwe, Sudoeste Africano/Namíbia e África do Sul.
"No cargo de Alto-Comissário para os Desalojados (entre 10 de Setembro de 1976 e 31 de Julho de 1979), em articulação com o Automóvel Clube de Portugal, promovi a recolha e a entrega aos seus proprietários, em Portugal, de 1256 camiões. Não foi possível determinar o número de pessoas envolvidas."
- Os Pescadores. De portos angolanos largaram, em princípios de Setembro de 1975, 27 traineiras com 539 pescadores e suas famílias rumo a Portugal. Duas afundaram-se, mas as restantes concluíram a travessia do Atlântico com sucesso e chegaram a «bons portos» na costa portuguesa.
- Portugueses do Sul de Angola. Na esperança de poderem regressar, num futuro próximo, a Angola, milhares de residentes nos distritos de Huíla, Moçâmedes, Cunene e Cuando-Cubango, entre Setembro e Outubro de 1975, organizaram-se em três colunas e procuraram refúgio na Namíbia.
"No cargo de Alto-Comissário para os Desalojados organizei, entre Fevereiro e Abril de 1977, uma mini-ponte aérea que de Windhoek, capital da Namíbia, transportou para Lisboa cerca de 11.000 portugueses que ali se encontravam refugiados."
RECENSEAMENTO DOS DESALOJADOS
Na vigência do Comissariado para os Desalojados, foi realizado, em 31 de Dezembro de 1977, o recenseamento dos que tinham vindo do ex-Ultramar.
Os resultados oficiais ali apurados foram confirmados num novo recenseamento em 30 de Junho de 1978: 463.315 «desalojados».
Outros terão vindo e não se terão recenseado por:
- Não o terem querido fazer, nomeadamente profissões liberais, bancários e funcionários públicos;
- Não se enquadrarem no conceito de desalojado;
- Não terem a nacionalidade portuguesa.
PROCLAMAÇÃO DA INDEPENDÊNCIA E RETIRADA PORTUGUESA DE ANGOLA
Às 12h10 de 10 de Novembro de 1975, no salão nobre do palácio dos Governadores, o Alto-Comissário, Vice-Almirante Leonel Cardoso, iniciou a leitura da “Proclamação da Independência de Angola". Ninguém ido de Portugal (políticos ou jornalistas) – reinava o PREC – nem qualquer representação dos três Movimentos de Libertação: FNLA, MPLA, UNITA. Audiência constituída, apenas, por jornalistas angolanos e estrangeiros.
Terminada a leitura, foi dada por finda a cerimónia e seguiu-se uma refeição privada, a última, na sala de jantar da Residência. Dali seguimos para a biblioteca. A conversa não era muita. Havia uma sensação de vazio no espírito e na alma de todos os presentes.
A última Bandeira Nacional foi arriada com todas as honras militares na Fortaleza de S. Miguel[2], às 15h30, e contou com a presença dos últimos representantes da soberania de Portugal em Angola[3]. Três militares recolheram a Bandeira, dobraram-na e transpuseram o portão de armas, dirigindo-se para o Alto-Comissário, que a acolheu. O pesado portão foi por nós fechado e a chave entregue ao diplomata que se encontrava em Luanda, preparando a abertura da Embaixada de Portugal. Consumava-se o encerramento do ciclo histórico de “Portugal Além-mar".
Às 16h15, iniciou-se a desconcentração, no largo fronteiro à fortaleza. Destino: a Base Naval para embarque nos paquetes NIASSA (Alto-Comissário e todos os que o acompanhávamos, juntamente com os últimos voluntários da Ponte Aérea e o Batalhão de Paraquedistas sob o comando do Tenente-Coronel Ramos Gonçalves) e UÍGE (Agrupamento Blindado do Major Moreira Dias e uma Força de Fuzileiros com dois Destacamentos sob o comando do 1.º Tenente Mateus e do 1.º Tenente Correia Graça).
Jantámos a bordo, ouvindo o som cavo dos motores em fase de amarar. Poucos minutos antes da meia-noite, foram içadas as âncoras e o conjunto dos dois paquetes e a força naval de escolta – duas fragatas, uma corveta e um navio-petroleiro S. Gabriel – pôs-se em movimento para a saída da baía de Luanda, rumo ao Norte. E na serenidade da noite escura angolana, quente, acolhedora, recordo, como se fora um filme, o espectáculo de luz e som que, à meia-noite em ponto, irrompeu na cidade de Luanda traduzido em miríades de balas tracejantes à míngua de fogo de artifício.
O dia 11 de Novembro de 1975 ia nascer. Um novo Estado soberano, Angola, juntava-se à Sociedade das Nações. Cinco séculos e seis décadas após Ceuta, Portugal “regressava ao ovo" no espaço europeu, deixando atrás de si, mundo fora, sete novos países e pegadas históricas indeléveis.
Nota Final
O autor apoiou a sua descrição na obra de sua autoria «A Vertigem da Descolonização. Da Agonia do êxodo à Cidadania Plena. Editorial Inquérito, 2002»
NOTAS
[1] Os três Movimentos designaram-no «Acordos do Alvor». Assinaram, de facto, o Acordo do Alvor.
[2] Fortaleza reconstruída e ampliada nos finais do século XVII e princípios do século XVIII, após a expulsão dos holandeses por Salvador Correia de Sá. A partir de 1962, foi a sede do Comando-Chefe das Forças Armadas Portuguesas.
[3] Alto-Comissário; General Heitor Almendra; Brigadeiro Telo; C.M.G. Gabor Patkoczi; Coronel Ferreira de Almeida; Ajudante de Campo; Diplomata; Tenente-Coronel Gonçalves Ribeiro; Tenente-Coronel “pára" Ramos Gonçalves.
ANTÓNIO GONÇALVES RIBEIRO
Tenente-General na situação de reforma. Durante o período de transicção para a independência, ocupou o cargo de Secretário de Estado da Administração territorial no Governo Provisório de Angola e de Secretário-geral do Alto Comissariado, no âmbito do qual coordenou a «Ponte aérea». Em Portugal, foi Alto-Comissário para os Desalojados 1976-1978. Representante Militar Nacional no SHAPE/NATO 1985-1988. Director do Departamento de Operações do EME. Director-geral da DGPDN, desde a sua criação, em Julho 1989, até Dezembro de 2000.
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Como citar este texto:
RIBEIRO, António Gonçalves – O Termo da Soberania de Portugal em Angola. Há 50 Anos - Farrapos de Memórias - Dossier: Da Retirada Militar do Ultramar ao 25 de Novembro de 1975. [Em linha] Ano V, nº 9 (2025); https://doi.org/10.56092/NIFU5577 [Consultado em ...].