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19 D - Intervenção do Ministro da Defesa Nacional, Nuno Melo
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INTERVENÇÃO DO MINISTRO DA DEFESA NACIONAL, 
NUNO MELO

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Senhor Chefe do Estado-Maior do Exército, General Eduardo Mendes Ferrão

Senhor Deputado à Assembleia da República, Dr. Bruno Vitorino

Senhor General Silva Viegas

Senhor General Pinto Ramalho

Senhor Vice-Chefe do Estado-Maior do Exército, Tenente-General Maia Pereira

Senhor Secretário-Geral do Ministério da Defesa Nacional, Tenente-General Fernando Serafino

Senhor Diretor-Geral de Política da Defesa Nacional, Tenente-General Lemos Pires

Senhor Diretor-Geral de Armamento e Património da Defesa Nacional, Dr. António Baptista

Senhor Presidente da Comissão para as Comemorações do 50.º Aniversário do 25 de Novembro de 1975, Tenente-General Alípio Tomé Pinto

Senhor Presidente da Direção Nacional da Associação de Comandos, Dr. José Lobo do Amaral

Senhores Oficiais Generais

Senhor Comandante do Regimento de Comandos, Coronel Alexandre Varino

Demais entidades Militares e Civis

Minhas Senhoras e Meus Senhores

 

Apresento-me hoje perante vós, Comandos, para celebrar a dádiva maior da liberdade e da democracia.

Faço-o neste Regimento, 50 anos passados sobre o 25 de Novembro de 1975, por memória histórica, por sentido de justiça e por dever de gratidão - porque sabemos reconhecer nas Forças Armadas os protagonistas que tiveram um papel destacado. Do qual a minha geração é hoje a primeira benificiária bem como todas as que lhe seguiram.

O 25 de Abril de 1974, enquanto data maior, permitiu a mudança de um regime, com a intenção da devolução do poder ao povo português.

Mas se assim foi, deveu-se ao 25 de Novembro de 1975 a correção do desvio que pelo caminho foi tentado.

Foi assim por ação dos partidos democráticos no plano político, mas foi assim principalmente por causa de militares de todos os Ramos nas Forças Armadas. Mas com especial destaque, devemos assumir, para os Comandos saídos do Regimento da Amadora.

Quanto a isto não há dúvidas, nem há equívocos.

Sem os Comandos não teríamos tido o 25 de Novembro.

E sem o 25 de Novembro não teríamos a construção do regime democrático em Portugal que todos conhecemos.

Tivemos a Constituinte, é verdade. Mas as primeiras eleições legislativas só aconteceram através do voto livre em 25 de Abril de 1976, seguindo-se as primeiras eleições presidenciais e, depois, as eleições para os parlamentos regionais, nos Açores e na Madeira e também eleições autárquicas.

Com o 25 de Novembro garantiu-se a afirmação das liberdades. Devolveu-se ao 25 de Abril o seu propósito originário.

E devolveu-se ao povo o poder de escolher livremente o seu destino através do voto.

Corrigiu-se assim um desvio. Dobrou-se o arco da História.

E os portugueses alcançaram o destino que queriam para si próprios.

Minhas Senhoras e Meus Senhores,

Ninguém duvide: há momentos na História em que os acontecimentos podem cair para um lado…ou para o outro.

Nestes momentos, o que sela o destino da liberdade, é a têmpera e o carácter de seres humanos superiores que também se afirmam de forma abnegada e pela coragem.

No caminho entre o 25 de Abril de 74 e o 25 de Novembro de 75 tivemos o PREC, um processo revolucionário então em curso e tudo o que essa pulsão de deriva totalitária significou: nacionalizações; saneamentos; ocupações; cercos ao poder político; cercos a congressos; a reforma agrária; a detenção arbitrária de cidadãos, não raras vezes por delitos de opinião e muitos presos políticos já depois do 25 de Abril.

Há 50 anos, essa dupla visão esteve em disputa e nós bem sabemos que a relação de forças podia ter-se desequilibrado.

Mas no momento decisivo, quando era mais difícil, os Comandos superaram-se, e interpretando a vontade de um povo, souberam ficar do lado certo da História, arriscando a vida e dando a vida por isso.

Foi por dos Comandos que fracassaram as visões totalitárias. Foi por causa disso que se derrotou o PREC.

Foi por causa disso que terminou um ciclo perigoso que nos podia ter levado a uma guerra civil.

Foi por causa disso que a democracia venceu.

E, uma vez mais, a história dos Comandos, como tantas outras vezes no passado, traduziu-se em dádivas e em sacrifício tal como em honra e em glória.

Evoco pois, como esse sentido de justiça e de gratidão a liderança decisiva dos então Tenente-Coronel Ramalho Eanes e do Coronel Jaime Neves, guiados pela lucidez, e neles a coragem de todos os Comandos.

E evoco a memória do Tenente José Coimbra e do Furriel Joaquim Pires, que escreveram com sangue o juramento feito perante a Bandeira Portuguesa cumprindo o sacrifício supremo para que pudéssemos ser todos livres.

Quero dizer outra coisa: ninguém é dono de Abril como ninguém é dono de Novembro.

Não celebramos nenhuma das datas sob tutela e sei que nenhum democrata tem problemas com qualquer delas.

Esquecer o 25 de Novembro significaria sacrificar o melhor do 25 de Abril, desvalorizar a democracia e tratar com injustiça algumas das figuras maiores no plano militar e no plano político da nossa história recente.

Abril e Novembro são liberdade e democracia. Uma data não vive sem a outra.

E nessa medida, um agradecimento especial à Associação de Comandos, e através dela aos antigos Comandos, pela contribuição decisiva para o sucesso das comemorações em

curso, através do seu representante na Comissão do 25 de Novembro, superiormente presidida pelo Tenente-General Tomé Pinto que mais uma vez saúdo.

Cinquenta anos depois, num mundo em que autocracias desafiam as democracias, continuamos a encontrar nos Comandos o sentido de honra, disponibilidade para o dever, e o exemplo de nunca deixar de lutar pela Pátria portuguesa.

Mama Sume ecoa ainda hoje o grito dos heróis que nunca recuaram, mesmo nos cenários mais difíceis - são os herdeiros legítimos do Estandarte Nacional mais condecorado, à guarda deste Regimento.

O grito dos antigos comandos que hoje ecoou no Assembleia da Republica é o mesmo grito que aqui se projeta neste Regimento, por diferentes gerações.

O serviço à Pátria é, num caso e no outro, o denominador comum.

Repito o que aqui lhes disse há 01 ano: orgulhamo-nos de todos os Comandos, do passado e do presente.

Dos que lutaram e dos que caíram em África, Comandos portugueses de muitas cores, portugueses e camaradas africanos. De Marcelino da Mata, militar português mais condecorado de sempre.

Não esquecemos os que lutaram e lutam pela Paz, e em alguns casos também caíram, ou foram feridos nas missões.

Evoco o Primeiro-Sargento Roma Pereira, o Cabo-Adjunto Mourão, o Primeiro-Sargento António Fortes, Primeiro-Sargento Barry, o Cabo-Adjunto Lenate Inácio, o Soldado Semedo e o Soldado Aliu Camará.

Não esquecemos também todos os outros que já partiram no ciclo normal desta passagem terrena. Não esquecemos as madrinhas de guerra e não esquecemos as viúvas.

Aqui, os homens partem, mas a lenda fica - porque quando Praças, Sargentos e Oficiais enterram a baioneta nesta terra portuguesa e todos gritam “presente", são a voz arrepiante e sentida de todos, uma voz que nenhuma morte cala, porque é feita de pertença aos Comandos e de serviço à Pátria Portuguesa.

Aos antigos e aos modernos, nunca vencidos, continuem a ser audazes para que a sorte vos proteja sempre.

Vivam os Comandos. Viva a Democracia

Viva sempre a Pátria Portuguesa.​​​

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MELO, Nuno – Intervenção do Ministro da Defesa Nacional, Nuno Melo – Dossier: Da Retirada Militar do Ultramar ao 25 de Novembro de 1975. [Em linha] Ano V, nº 9 (2025); https://doi.org/10.56092/LLGO1625​[Consultado em ...]

Última atualização: 10 de fevereiro de 2026

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