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18 - Museu da Guerra Colonial de Famalicão
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O MUSEU DA GUERRA COLONIAL DE RIBEIRÃO, VILA NOVA DE FAMALICÃO: GUARDIÃO DA MEMÓRIA E DOS VALORES MILITARES PORTUGUESES

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José Manuel Lages, Augusto Silva, Anquises Carvalho, Natália Rodrigues

 

 

 

Entrada do Museu da Guerra Colonial – MGC

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Mural produzido por deficientes das Forças Armadas, ADFA​


1. Introdução

A Guerra Colonial Portuguesa (1961–1974) permanece como um dos capítulos mais complexos e decisivos da história contemporânea nacional. Durante treze anos, Portugal manteve um esforço militar, político e humano notável em defesa da integridade territorial e da presença ultramarina. Este conflito, que mobilizou mais de um milhão de portugueses, marcou profundamente o tecido social, as famílias e as Forças Armadas.

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Guerra Colonial “Uma História por contar”

Com o avançar do tempo, tornou-se imperativo preservar a memória dos que serviram, assegurar que o seu legado não se perdesse e que as gerações futuras compreendessem o sentido do dever, do sacrifício e da lealdade à Pátria. É neste contexto de compromisso com a memória e com a verdade histórica que se insere o Museu da Guerra Colonial, inaugurado a 23 de abril de 1999.

Situado em Ribeirão, Vila Nova de Famalicão, o museu é hoje um espaço de homenagem, estudo e reflexão, destinado a honrar a memória dos combatentes portugueses e a perpetuar os valores militares que sustentam a identidade nacional. Mais do que um museu, é uma instituição de cidadania, onde se preserva a História e se cultivam os valores que definem as Forças Armadas: disciplina, honra, coragem e espírito de serviço.

2. A génese de um espaço de memória

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Baú da Guerra​

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Conteúdo do baú do combatente

A criação do Museu da Guerra Colonial resultou da convergência de vontades e esforços de três entidades: a Associação dos Deficientes das Forças Armadas (ADFA), a Câmara Municipal de Vila Nova de Famalicão e a Alfacoop – Cooperativa de Ensino de Braga. A iniciativa surgiu da consciência de que a Guerra Colonial, pela sua dimensão humana e histórica, exigia um espaço próprio que documentasse, com rigor e dignidade, a vivência de milhares de militares portugueses nos teatros de operações africanas.

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Promotores/fundadores do MGC

A data da inauguração — 23 de abril de 1999 — não foi escolhida ao acaso, antes das comemorações da Revolução de Abril, simboliza a ponte entre o tempo do conflito e o tempo da liberdade, lembrando que a História deve ser recordada com serenidade, verdade e respeito.

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Placa comemorativa da inauguração do MGC

A instalação do museu em Ribeirão — freguesia industrial e dinâmica, integrada no concelho de Vila Nova de Famalicão — reforça o caráter comunitário do projeto. A autarquia famalicense tem-se afirmado como um modelo de gestão cultural de proximidade, apoiando a criação de espaços museológicos dedicados à memória coletiva e à valorização das tradições locais. O Museu da Guerra Colonial integra, assim, a Rede de Museus do Município, beneficiando de uma articulação sólida entre a dimensão cívica, pedagógica e científica.

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3. A Guerra Colonial: contexto e significado histórico

A Guerra Colonial iniciou-se em 1961 com os primeiros confrontos em Angola, alastrando, nos anos seguintes, à Guiné e a Moçambique. O conflito decorreu em três frentes simultâneas, impondo ao país um esforço militar sem precedentes no século XX.

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Momento anterior a uma operação militar

Durante treze anos, as Forças Armadas Portuguesas mantiveram presença constante em territórios extensos e geograficamente adversos, enfrentando guerrilhas de natureza assimétrica e condições ambientais extremamente difíceis. As operações implicaram elevada mobilização humana, logística complexa e uma profunda reestruturação organizacional e tecnológica das Forças Armadas.

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Acervo da Enfermeira Paraquedista Tenente Rosa Serra

 

O impacto da guerra foi enorme: mais de 9.000 mortos, dezenas de milhares de feridos e mutilados, e centenas de milhares de famílias diretamente afetadas. Mas a memória da Guerra Colonial vai além dos números. Ela é feita de rostos, de histórias, de cartas escritas à pressa nas madrugadas africanas, de camaradagem forjada sob o fogo e de coragem silenciosa.

O Museu da Guerra Colonial nasce precisamente para dar rosto e voz a esses protagonistas, restituindo-lhes o lugar que a História muitas vezes lhes negou. Ao fazê-lo, cumpre o dever de lembrar sem julgar, compreender sem esquecer e dignificar o serviço militar enquanto expressão do dever e do patriotismo.

Trabalha todos os conteúdos segundo o método da história oral, apoiando-se em fontes documentais e iconográficas trazidas pelos combatentes — o seu verdadeiro “Baú da Guerra" —, que muitos conservam até ao momento da morte. Esses testemunhos pessoais, objetos, diários e cartas constituem não apenas documentos históricos, mas também fragmentos de memória viva, que o museu recolhe, interpreta e transforma em património coletivo, perpetuando assim a herança dos que serviram com coragem e sacrifício.

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Cronologia da Guerra Colonial

 

4. O acervo: património material e imaterial da guerra

O Museu da Guerra Colonial reúne um acervo vasto e diversificado, representativo das três frentes de combate. A exposição permanente está organizada de forma cronológica e temática, permitindo ao visitante compreender a dimensão humana, operacional e simbólica do conflito.

Entre os principais núcleos, destacam-se:

Fardas e uniformes militares de diferentes armas e unidades;

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Uniformes de gala dos três ramos das Forças Armadas

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              Uniformes e distintivos

Armamento ligeiro e equipamento de campanha;

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Armas utilizadas na Guerra Colonial. Cedência do Exército

Cartografia, mapas operacionais e relatórios táticos;

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Mapas operacionais, relatórios táticos e diários de companhia

Documentos pessoais, cartas, fotografias e diários;

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Documentos pessoais, cartas e fotografias

Distintivos, medalhas, insígnias e condecorações;

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Distintivos, Medalhas, insígnias, diplomas e condecorações

Materiais de enfermagem e sobrevivência, testemunhos das duras condições de combate.

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Maleta primeiros socorros e ofertas aos combatentes

Para além da exposição permanente, o museu possui um Espaço Memorial, dedicado à homenagem dos que perderam a vida, e uma Sala de Honra onde estão inscritos os valores fundacionais das Forças Armadas: honra, lealdade, dever, disciplina e camaradagem.

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Os que não regressaram​

 O acervo é continuamente enriquecido por doações de antigos combatentes e suas famílias, que veem no museu o local mais digno para a preservação dos seus testemunhos. Cada peça é catalogada e acompanhada de uma história, garantindo que o património material se mantém indissociável da memória humana que lhe dá sentido.

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Colóquio “O quotidiano, as memórias e os traumas da guerra Colonial”. Da esq. para a dir.: Cândido Patuleia, ADFA Nacional; José Morais, prisioneiro de guerra; Tenente Enfermeira Paraquedista Rosa Serra; Abel Fortuna, ADFA; José Manuel Lages, Diretor científico do MGC.


5. Missão e valores institucionais

A missão do Museu da Guerra Colonial assenta em três pilares fundamentais: preservar, estudar e transmitir. Preservar o património histórico e simbólico; estudar os contextos políticos, sociais e militares; e transmitir os valores das Forças Armadas às novas gerações.

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As salas e o estudo deste período da nossa história contemporânea

Esta instituição de memoria coletiva procura assegurar que o passado seja compreendido não como glorificação da guerra, mas como testemunho de serviço e sacrifício. Os ex-combatentes são vistos como agentes de cidadania, que colocaram a Pátria acima de si próprios. Neste sentido, o museu cumpre um papel cívico, promovendo o respeito, a tolerância e o reconhecimento.

Através das suas exposições, publicações e ações educativas, o museu reafirma princípios que constituem o alicerce da identidade militar portuguesa: o dever, como compromisso inquebrável; a honra, como guia moral; a disciplina, como sustentáculo da força coletiva; e a camaradagem, como laço humano que transcende o tempo e o espaço.

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 Exposição itinerante do MGC, comemoração dos 50 anos da ADFA Nacional.​

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Exposição itinerante do MGC, comemoração dos 50 anos da ADFA Nacional. Da esq. para a dir: Anquises Cróccia Carvalho, membro da direção do MGC e Presidente da Delegação da ADFA de Vila Nova de Famalicão; Dr. Lavoura, ADFA Nacional; Ex. Sr. Ministro da Defesa Nacional Dr. Nuno Melo; Coronel Santa Clara Gomes, Presidente da ADFA Nacional.


6. A Rede de Museus e a função pedagógica

A integração do Museu da Guerra Colonial na Rede de Museus da Câmara Municipal de Vila Nova de Famalicão reforçou a sua dimensão educativa e científica. O museu colabora ativamente com escolas, universidades, associações culturais e entidades militares, promovendo atividades pedagógicas que procuram despertar o interesse pelas questões históricas e pelos valores da cidadania. Desde 2022, encontra-se equipado com recursos de realidade aumentada, enriquecendo a experiência imersiva dos visitantes.

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Rede de Museus: Juntos fazemos Museu

As visitas guiadas e sessões temáticas são adaptadas a diferentes públicos, permitindo que alunos e cidadãos compreendam a guerra não como episódio distante, mas como experiência humana que moldou a sociedade portuguesa.

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Visitas Guiadas, homenagem aos falecidos na Guerra Colonial

Com apoio técnico e logístico da Câmara Municipal, o MGC tem desenvolvido exposições temporárias, encontros de veteranos, apresentações de livros e programas de investigação, consolidando a sua posição como centro de memória viva e reflexão crítica.

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Coronel Matos Gomes, Colóquio Guerra Colonial portuguesa / Entre a história e a memória​

7. Cerimónias e homenagens: o dever de recordar

Anualmente, o Museu da Guerra Colonial organiza e acolhe cerimónias de homenagem aos antigos combatentes — momentos de recolhimento e partilha que unem militares, famílias e comunidade. Estas cerimónias são mais do que atos protocolares: são expressões autênticas de gratidão nacional.

Entre as atividades regulares destacam-se:

Comemorações do 25 de Abril;

Cerimónias do Combatente, com deposição de coroas;

Exposições temporárias temáticas;

Sessões de testemunhos orais, onde ex-combatentes partilham as suas experiências.

   O museu é ainda espaço de lançamento de publicações, conferências e encontros académicos, reforçando o diálogo entre a memória vivida e a historiografia militar.

 

8. O museu como espaço de cidadania e patriotismo

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Comemorações do 25 de Abril. 25.º Aniversário do MGC. Da Esq.ª para a Dir.ª: Jaime Ferrari, Escritor; Sr. Silva, presidente da Direção do MGC; Dr. Leonel Rocha, Presidente da Mesa da Assembleia do MGC; Presidente da Junta de Freguesia de Ribeirão, Dr. Nelson; Chefe da Divisão da Cultura da Câmara Municipal de Vila Nova de Famalicão, Dr. Mário Passos; Presidente da Câmara Municipal de Vila Nova de Famalicão, Dr.ª Diana Pereira; Chefe de Serviço de Museus e Galeria, Rede de Museus de Vila Nova de Famalicão


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 Apresentação de livro e sarau musical

Mais do que um espaço expositivo, o Museu da Guerra Colonial é um lugar de valores. Aqui, o visitante confronta-se com o sentido profundo do dever e com a responsabilidade coletiva de preservar a memória nacional.

A pedagogia do museu não se limita ao passado: convida à reflexão sobre o presente e o futuro. Numa era de transformação tecnológica e social acelerada, o museu recorda que a história é o alicerce da identidade e que os valores militares — disciplina, serviço, solidariedade e honra — permanecem essenciais à coesão de qualquer sociedade.

Ao celebrar os que serviram, o museu reforça a importância da paz como conquista coletiva e da memória como instrumento de cidadania ativa. O seu papel ultrapassa o âmbito histórico: é também um agente moral e educativo ao serviço da Nação.

 

9. Conclusão

O Museu da Guerra Colonial de Ribeirão, em Vila Nova de Famalicão, é hoje um símbolo da preservação da memória e da valorização das Forças Armadas Portuguesas. Desde 1999, tem desempenhado um papel ímpar na recolha, conservação e divulgação de património relacionado com a Guerra Colonial, contribuindo para uma leitura mais humana e completa desse período da nossa História.

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Assinatura do Protocolo entre MGC e Guiné-Bissau. Comitiva do Governo da Guiné-Bissau e o Sr. Dr. Pedro Oliveira vereador da Cultura da Câmara Municipal de Vila Nova de Famalicão.

 

Mais do que um museu, o MGC é um espaço de reconhecimento e de verdade, onde o passado é evocado com respeito e a memória é tratada com dignidade. É um lugar onde se aprende que o dever cumprido e o serviço à Pátria são legados que transcendem o tempo.

O Museu da Guerra Colonial constitui um recurso inestimável para o estudo e compreensão da Guerra Colonial Portuguesa. Através da preservação de documentos, objetos e testemunhos orais, oferece aos investigadores e ao público em geral uma visão completa e humana do conflito. A instituição cumpre, assim, um papel académico e cívico: não apenas conserva o passado, mas promove reflexão crítica, compreensão histórica e transmissão de valores como disciplina, honra e camaradagem às novas gerações.

 



📦 Ficha Técnica / Box Informativo

Museu da Guerra Colonial

📍 Localização: Famalicão Central Park, Lote 35 A, 4760-673 Ribeirão – Vila Nova de Famalicão

🕰️ Horário: De terça a sexta-feira, das 10h00 às 17h30; sábado, das 14h30 às 17h30. Outros horários só por marcação.

🎖️ Fundadores: Associação dos Deficientes das Forças Armadas; Câmara Municipal de Vila Nova de Famalicão; Alfacoop – Braga

📅 Ano de inauguração: 23 de abril de 1999

☎️ Contactos: 252 217 998 / 912 521 946

📧 E-mail: info@museuguerracolonial.pt

🌐 Facebook: https://www.facebook.com/profile.php?id=100074125728027

🏛️. Integra: Rede de Museus da Câmara Municipal de Vila Nova de Famalicão

🎯 Missão: Preservar a memória da Guerra Colonial Portuguesa, honrando o serviço e o sacrifício dos militares que participaram nos teatros de operações de Angola, Guiné e Moçambique.

 


José Manuel Lages

Licenciado em História pela Faculdade de Letras da Universidade do Porto. Mestre do Curso de Mestrado em História da Colonização e das Migrações: Portugal/ Brasil, pela Universidade do Minho. Professor Jubilado; Membro fundador e membro da Direção da ALFACOOP – Cooperativa de Ensino, durante vários anos; Sócio Fundador e Diretor científico do Museu da Guerra Colonial de Famalicão; autor de várias Publicações e artigos sobre a Emigração minhota para o Brasil e a Guerra Colonial. 

Augusto Silva

Alferes na Guiné, deficiente de guerra, associado fundador da “Associação dos Deficientes das Forças Armadas (ADFA)” de Lisboa. Fundador e presidente da Associação do Museu da Guerra Colonial de Famalicão. Foi um dos associados fundadores da “Delegação da Associação dos Deficientes da Forças Armadas (ADFA)” de Vila Nova de Famalicão, 1ª Delegação do País.

Anquises Cróccia Carvalho 

Furriel em Angola, deficiente de guerra. Fundador e Presidente da Delegação dos Deficientes das Forças Armadas de Vila Nova de Famalicão, 1.ª Delegação do País. Membro da ADFA Nacional, membro da Direção do Museu da Guerra Colonial de Famalicão e fundador da sua Associação.

Natália Rodrigues

Funcionária da Câmara Municipal de Vila Nova de Famalicão, integra a Rede de Museus de Vila Nova de Famalicão. Colaboradora administrativa e técnica do Museu da Guerra Colonial, desempenha entre várias funções a digitalização do acervo e espólio.


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Como citar este texto:

LAGES, José Manuel et al – O Museu da Guerra Colonial de Ribeirão, Vila Nova de Famalicão: Guardião da Memória e dos Valores Militares Portugueses – Dossier: Da Retirada Militar do Ultramar ao 25 de Novembro de 1975. [Em linha] Ano V, nº 9 (2025); https://doi.org/10.56092/QUTM9249  [Consultado em ...]



Última atualização: 12 de janeiro de 2026

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