O número 6 da Revista Portuguesa de História Militar (junho 2024) foi subordinado ao tema “25 de Abril de 1974. Operações Militares", com uma linha editorial orientada no sentido de abordar essencialmente as questões militares, sem descurar as políticas, as económicas e as sociais, entre outras.
De acordo com essa mesma linha editorial, este número 9 (dezembro 2025), subordinado ao tema “Da retirada militar do Ultramar ao 25 de Novembro de 1975", visa abordar questões menos estudadas, investigadas e trabalhadas na “Academia", e mais relacionadas com o instrumento militar, maioritariamente através da “pena" dos seus atores.
O excelente trabalho desenvolvido pelos diretores da Revista (em regime de serviço público), encontrou nestes dois números muitos obstáculos de foro político, mas também pessoal, porque são acontecimentos muito recentes, dominados mais pela emoção e pela conjuntura política, do que pela razão.
Este número em particular, foi “atravessado" pela polémica nacional em torno das comemorações do 25 de Novembro de 1975, que infelizmente centrou o debate mais na esfera ideológica do que na importância do contributo desta data para a Democracia, sem descurar a importância cimeira do 25 de Abril de 1974 na conquista da Liberdade.
O próprio Presidente da Comissão Portuguesa de História Militar, já depois da opção da Revista por este tema, foi nomeado enquanto membro da Comissão para as Comemorações do 50.º Aniversário do 25 de Novembro de 1975, pela Resolução do Conselho de Ministros n.º 132-A/2005. Esta Comissão, liderada pelo Tenente-General Alípio Tomé Pinto, tem como orientação geral, assegurar o carácter plural e participado das comemorações de uma data «determinante para a consolidação do regime democrático nascido da Revolução do 25 de Abril de 1974». Foi nesse sentido que aqui foram incluídos os discursos e mensagens mais significativos das cerimónias militares mais emblemáticas, que tiveram lugar a 25 de Novembro de 2025, seja na Praça do Comércio (símbolo da Liberdade e da Democracia de Abril), seja no Regimento de Comandos (Unidade que teve um papel determinante em termos militares). Em todas as intervenções, seja de militares ou civis, está presente a relação “umbilical" entre o 25 de Novembro de 1975 e o 25 de Abril de 1974, do mesmo modo que a “pertença" das duas datas ao Povo Português.
A revista começa com a cronologia dos acontecimentos, da autoria dos diretores, muito importante como enquadramento deste período complexo da nossa História recente. Entre os artigos mais relacionados com a descolonização e a retirada militar do Ultramar, destacam-se: os de Pedro Esgalhado sobre “Os Tratados para as Independências", de Gonçalves Ribeiro (protagonista da ponte aérea) relativo ao “Termo da Soberania de Portugal em Angola", os textos de Aniceto Afonso e de Miguel Sanches ambos dedicados à “Descolonização de Moçambique", de Alexandre Sousa Pinto sobre “A Guiné e o 25 de Abril de 1974", de Abílio Lousada sobre “Timor-Leste 1974-75", de António Rodrigues Pereira sobre “A Marinha Portuguesa em Timor pós 25 de Abril" e de Raul Tati sobre “A Intervenção Militar Cubana no Enclave Petrolífero de Cabinda em 1975".
Relativamente aos artigos mais diretamente relacionados com o 25 de Novembro de 1975, é importante, como enquadramento nacional, a leitura do artigo de Alípio Tomé Pinto sobre o período “Do 25 de Abril de 1974 ao 25 de Novembro de 1975", numa perspetiva mais militar, e o da autoria de Henrique da Costa Ferreira sobre “A 2.ª Fase do PREC", do mesmo modo que, para o enquadramento internacional, é fundamental a leitura do artigo de José Luís Andrade sobre “O 25 de Novembro no Contexto dos Acordos de Helsínquia". Mais relacionados com a atividade operacional do 25 de Novembro de 1975, o destaque vai para o artigo de Manuel Apolinário intitulado “Do 25 de Novembro: Os Comandos e a atividade operacional da Companhia de Comandos 113/75", de António Mimoso e Carvalho sobre “A Força Aérea do 11 de Março ao 25 de Novembro de 1975" e de David Martelo “1975 – De Julho a Novembro, na Região Militar do Norte". Da autoria do Paulo Jorge Estrela ainda podem ler “A Ordem da Liberdade e os Comandos tombados no 25 de Novembro", em homenagem merecida e oportuna aos Comandos em geral e aos dois militares que faleceram no âmbito do 25 de Novembro, a que se juntou, ainda, um militar da Polícia Militar – todos eles recordados e homenageados na cerimónia militar relativa aos 50 anos do 25 de Novembro de 1975, seja na cerimónia de homenagem aos mortos, seja nos discursos e mensagens que fazem parte deste número.
No já tradicional artigo sobre museus militares nacionais, coube a este número o Museu da Guerra Colonial de Famalicão que «recupera aquilo a que chamamos “o Baú da Guerra" que depois de aberto fornece fontes importantíssimas para o estudo do combatente português na Guerra Colonial».
Como Extra-Dossier, este número inclui um artigo de Vitaly Venislavskyy sobre a Guerra da Crimeia, relacionado com a guerra cognitiva como estratégia militar aplicada pelo império russo, de leitura obrigatória para quem acompanha a atual guerra da Rússia na Ucrânia, enquadrada pela nova ordem internacional das Grandes Potências (EUA, China e Rússia).
Resta-me agradecer aos diretores da Revista, aos autores e a todos os colaboradores que, mais ou menos diretamente, participaram neste número “especial" para a História recente de Portugal.
Mais importante do que os diferentes pontos de vista aqui expressos, são os testemunhos aqui deixados por atores que viveram intensamente este período da História. A todos eles, os meus encómios pela coragem e determinação na luta contra o radicalismo e em prol da Democracia. Muito obrigado!
JOÃO VIEIRA BORGES
Major-General do Exército, Presidente da Comissão Portuguesa de História Militar.
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Como citar este texto:
BORGES, João Vieira – Editorial. Revista Portuguesa de História Militar - Dossier: Da Retirada Militar do Ultramar ao 25 de Novembro de 1975. [Em linha] Ano V, nº 9 (2025); https://doi.org/10.56092/KHYK1431 [Consultado em ...].