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Entrevista ao 1.º Português a liderar uma missão europeia no Mali

João Boga Ribeiro concedeu uma entrevista ao Portal da Defesa, onde revela as suas motivações para a missão, expectativas e desafios para os próximos 6 meses, bem como o contributo que os militares nacionais podem acrescentar à operação.

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12 de dezembro de 2019 - Fonte: EMGFA

João Boga Ribeiro é o primeiro português a liderar a Missão de Treino da União Europeia no Mali, que envolve cerca de 800 militares de 27 países.  O brigadeiro-general concedeu uma entrevista ao Portal da Defesa, onde revela as motivações que o levaram a aceitar este desafio, as expectativas e desafios para os próximos 6 meses, bem como o contributo que os militares nacionais podem acrescentar à operação.

Com que sentimento recebeu a notícia de que iria assumir o comando da missão no Mali?

Com muita satisfação pela honra que me foi dada, com o sentido de disponibilidade que é inerente à condição militar e com um enorme sentido de responsabilidade, em virtude da relevância, complexidade e dificuldade da missão, em particular no momento sensível que atravessa, em conjunto com a noção muito clara de estar a representar as cores nacionais na maior força terrestre multinacional europeia, composta por 27 nações e quase 800 pessoas.​

Que significado tem para si esta nomeação e esta missão? 

No plano pessoal, a assunção desta missão representa um enorme desafio. O comando de uma operação num ambiente internacional acarreta sempre outro tipo de exigências.  Tratando-se de uma missão que visa apoiar um país e uma região muito afetada por fatores de desestabilização variados e intensos, a possibilidade de poder contribuir para a capacitação das estruturas fundamentais de um Estado, concorrentes com os efeitos que se pretendem atingir nos planos da segurança, estabilidade e desenvolvimento das populações, constitui incontornavelmente uma motivação da mais elevada relevância.  Afinal, essa é a mais importante finalidade de uma missão militar: contribuir para a garantia das normais condições de vida das populações e permitir o seu desenvolvimento harmonioso.​

Quais são os principais desafios desta missão? 

A EUTM Mali apresenta múltiplos desafios.  Uns que são intrínsecos à organização e finalidade.  No âmbito da organização, a grande representatividade multinacional, que corporiza também uma vontade expressa de contribuição europeia para a estabilização desta importante área do Sahel, e também a diversidade dos seus pilares de atuação, que incorporam o aconselhamento das estruturas de segurança e defesa das Forcas Armadas do Mali, o apoio a educação, formação e treino dos seus militares, o apoio à formação em planos específicos dos ex-combatentes no sentido da sua plena integração no dispositivo militar maliano e, finalmente, o apoio a capacitação e formação da Força Conjunta dos países do G5S, nomeadamente, a Mauritânia, o Mali, o Burkina Faso, o Níger e o Chad, força destinada a vigilância e controlo de fronteiras nesta região.

Um segundo conjunto de desafios está relacionado com a complexa situação securitária na região, o que implica que a missão da EUTM Mali não se circunscreva a apoiar o desenvolvimento e o futuro das estruturas de Defesa do Mali, mas também a procurar ir ao encontro das suas necessidades atuais, contribuindo para a formação e autonomização das suas unidades em múltiplas áreas, de forma a melhorar a aplicação operacional tendente aos esforços de estabilização do país e da região.

Finalmente um terceiro conjunto de desafios diz respeito à articulação das diferentes entidades internacionais contributivas para a estabilização da região, em coordenação com as estruturas de Segurança e Defesa do Mali. 

Que contributo espera dar, ou seja, quais são as características/ ferramentas da sua parte que antevê como mais-valia para o comando da missão?

Esta missão está mais vocacionada para a capacitação das estruturas de segurança e é influenciada por situações securitárias complexas, levando ao desenvolvimento de ações destinadas a cada uma destas grandes áreas em simultâneo.  O seu sucesso deve necessariamente passar primeiramente pela garantia da segurança física de todo o pessoal e das populações, pela manutenção dos esforços desenvolvidos, procurando disponibilizar o apoio em todas as áreas e níveis correspondentes à missão e possibilidades da força, através do estabelecimento das melhores relações possíveis com as autoridades locais e os parceiros.  Desta forma, analisada a situação atual, a minha expetativa é poder consolidar os esforços até agora conseguidos em conjunto com as autoridades malianas e o apoio das restantes entidades europeias e outros atores presentes, indo cada vez mais ao encontro das necessidades no terreno e contribuindo com um incremento de qualidade e quantidade da formação ministrada, no sentido de dotar as Forças Armadas malianas e o G5S JF de melhores e mais autónomas capacidades militares. ​

Que mensagem levará aos militares portugueses e estrangeiros no terreno? 

Aos militares portugueses transmitirei o privilégio que sinto em assumir o seu comando e a responsabilidade de procurar estar sempre à altura das suas enormes competências.  Aos militares estrangeiros, levarei a mensagem de que ninguém faz nada sozinho e que só o espirito de equipa e de conjugação de esforços, nos fará vencer os muitos e difíceis desafios que temos pela frente, contando sempre comigo para estar com eles, para os apoiar e para garantir as necessárias condições de segurança para o exercício das suas funções.  Por outro lado, conto com eles, com a sua competência, o seu exemplo, a sua conduta e conselho, para assegurar a boa execução da missão europeia, que visa melhorar as condições de vida desta população maliana tão antiga e tradicional. 

Quais são as valências dos militares portugueses neste tipo de missões, que gostaria de salientar? 

As principais valências dos militares portugueses são bem conhecidas e reconhecidas.  Normalmente, assentam sempre nas mesmas bases: a sua enorme competência, a sua exemplar adaptabilidade e a sua extraordinária capacidade relacional.

Que importância considera ter esta missão, no âmbito da estratégia portuguesa de cooperação internacional no domínio da Defesa?

Como membro da União Europeia, Portugal está profundamente empenhado num diversificado conjunto de missões no âmbito da Política Comum de Segurança e de Defesa.  A assunção do comando da maior missão terrestre da UE, num momento de particular dificuldade estratégica no Mali e na região do Sahel, em conjunto com as participações nas restantes missões na República Centro-Africana e na Somália, é seguramente a expressão mais reveladora do compromisso nacional com a segurança e defesa europeias, mas também com a sua tradicional característica universal e humanitária, procurando dar o seu contributo para a resolução de conflitos ou contenção da instabilidade junto dos seus focos e apoiando as populações.  Desejo que esta missão venha a traduzir-se numa prestação positiva e em permanente segurança, objetivos nos quais estarei profundamente empenhado.  Espero que este esforço possa igualmente auxiliar Portugal na preparação da sua difícil missão de presidir aos destinos da União Europeia no primeiro semestre de 2021.​

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